O verão chegou trazendo com ele milhares de turistas para o litoral paulista. Para muitos, esse é um momento de liberdade e descontração. Andar sem camisa, com chinelos, ir à praia quando quiser, se despir de formalidades, andar de bicicleta...

Estas são só algumas características dos habitantes do litoral (normalmente chamados de caiçaras) que são reproduzidos pelos visitantes. Mas ser caiçara não é só isso. É uma longa história que nos remete à formação do Brasil.

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Até o século 19, a vida na comunidade caiçara se deu de forma bastante simples

O caiçara é formado a partir da miscigenação de índios, brancos e negros, e por muito tempo foi visto como indolente, preguiçoso e negador do progresso. Esse estereótipo se deu porque enquanto houve a valorização econômica do interior com o movimento de expansão cafeeira, o litoral foi esquecido e abandonado pelo poder público, e, consequentemente a comunidade caiçara também.

A vida caiçara

Até o século 19, enquanto o interior florescia e gerava boa parte da renda do país, a vida na comunidade caiçara se deu de forma bastante simples. A economia, tradicionalmente, era baseada na agricultura de subsistência e na pesca. Curiosamente, a economia dele não se parece com a economia indígena primitiva, nem com a economia industrial. Nas comunidades caiçaras tradicionais, boa parte do sustento era produzido pelos próprios habitantes em modelo de agricultura familiar, mas ainda assim eram necessários insumos externos e também deveriam contribuir à sociedade nacional sob forma de impostos.

No século 20, com o processo de abertura das estradas permitindo fácil acesso ao litoral, a chegada do turismo e a urbanização, as transformações passaram a ocorrer de modo acelerado. A paisagem foi se urbanizando e o caiçara se adequou a esse novo modelo. A partir do momento em que a comunidade foi exposta a influências externas, conservar a identidade cultural intacta ou impedir que ela enfraquecesse se tornou uma tarefa muito difícil.

Caiçaras contemporâneos

Por isso, atualmente, difere-se o caiçara tradicional e o caiçara contemporâneo. O primeiro não é mais membro de uma comunidade isolada, pelo contrário, ele se formou a partir do convívio com a sociedade urbana. Além disso, outro fator importante para a ruptura no modo de vida tradicional foi o monitoramento dos níveis de desmatamento que inibiu a produção agrícola, fazendo com que as comunidades localizadas nessas áreas fossem obrigadas a modificar suas práticas de cultivo, uma vez que a lavoura não poderia ser ampliada futuramente e muito menos produzir algum excedente. Por fatores como esse, a população caiçara acabou inserida no mercado de trabalho da sociedade urbano-industrial.

Atualmente, essa comunidade é obrigada a modificar seu modo de vida e negociar com as novas culturas, mas isso não faz com que ela perca a identidade cultural. Mantêm-se muito da culinária, da ligação com o mar, das festas típicas como a festa da tainha, das procissões, do fandango, entre outras atividades. Ainda há fortes vínculos com a comunidade de origem e com as tradições, mas muitas vezes sem a ilusão de um retorno ao passado para a nova geração. O caiçara caracterizado como tradicional existe na memória das comunidades e seus arredores, sendo uma cultura quase impossível de manter-se intacta no mundo globalizado do século 21.

Orientação: Professor Christian Godoi