Por William Araújo

O que são crianças? Penso nelas como pequenos humanos vestidos de energia, sonho, alegria, fragilidade, e despidos de crueldade, sexo e posses. Crianças são, para mim, a genuína forma do ser. Elas são, apenas. Não pesquisam, nem receiam... Agem.

Ontem, existiam apenas crianças e adultos. Depois, no meio disso, Stuart Hall viu a adolescência. Como proceder amanhã, quando veremos apenas adultos ou crianças indumentadas de adultos? “Crianças adultas” crescem como frutas que aumentam de tamanho, mas nunca ficam maduras --ficam ácidas. Tudo precisa chegar rapidamente. Não cultivam, não esperam e não observam; apenas querem e têm.

Zaratustra, aquele profeta do Nietzsche, comparava homens a plantas e dizia que um vendaval curvava grandes árvores, assim como os males invisíveis da sociedade açoitavam uma “alma”. Falava que o segredo das árvores, para se manter de pé, frente à ventania, eram as raízes profundas.

Contudo, “crianças adultas” não tiveram tempo para criar raízes. Como lidarão com futuras ansiedades e decepções? Não lidam. Continuam escravas da satisfação e livres de consequências. Transferem as dificuldades a seus progenitores e vivem para consumir. Esquecem o amanhã e habitam o segundo que acabou de passar.

A instantaneidade e a impulsividade são um trunfo para o comércio, explicava Zygmunt Bauman. Daí, não tão raro, vemos a importância dada à velocidade em se formar adultos consumidores e impacientes. Crianças adultas brincam de carrinho no trânsito, de médico, de “bandido e mocinho”, de casinha, de profissional no trabalho, de estudante em sala, de fiel na igreja, de honesto na comunidade e de melhores amigos na vida. Para elas, mais vale a beleza de uma fotografia do que o momento vivido.

“Crianças são o futuro de uma nação”, mas quem o constrói somos nós, que já fomos pequenos e apresentamos, agora, as primeiras cores às novas gerações. Aprendemos que amadurecer é uma difícil arte, em que precisamos usar e misturar as cores que nos são dadas durante a vida --brandas e calmas, vibrantes e alegres, escuras e tristes--, para imbuir de estética e significado a pintura de um autorretrato.

Por tudo isso, assumir a educação de uma criança é, também, responsabilizar-se pelo futuro de outras tantas. As mesmas que percorrerão as galerias e exposições de pinturas que organizamos.

Orientadores: professores Leo Cunha e Maurício Guilherme Silva Jr.